O “Testamento de Jó” e WALFLAN FURTADO DE QUEIROZ

“Meu Deus, estendei sobre mim tua mão
E então poderei entender o silêncio,
Então poderei andar sobre as águas do mar.

“Meu Deus, estendei sobre mim tua mão,
E então poderei compreender teu Verbo,
Então poderei olhar os lírios do campo.

“Meu Deus, fazei-me ouvir de novo tua voz,
Para que eu responda aos que vierem de Sabá
E me restitua integral e perfeito a ti” (WALFLAN DE QUEIROZ. Testamento de Jó, Natal: Departamento Estadual de Imprensa, 1965, p. 25).

WALFLAN DE QUEIROZ, nascido em São Miguel-RN, em 21 de maio de 1930 e falecido em 13 de agosto de 1995, se vivo estivesse o poeta completaria neste ano (2010), oitenta anos.

O “Testamento de Jô”, publicado em 1966 é o terceiro livro do autor. Ao todo, a produção de WALFLAN compreende oito livros de poesias. Conta com 116 páginas, e a edição de” O Testamento de Jó”,  traz o selo do Departamento Estadual de Imprensa. Tem um conteúdo religioso como quase toda temática perfilhada por WALFLAN. Depois de uma transcrição do Livro de Jó (Jó 10, 20-21), na pagina seguinte, lê-se a seguinte dedicatória: “A YAHVÉ Dedico este livro”. Antes dos poemas, um “Prêmio”. Na página 115 o autor faz três agradecimentos: 1) JOÃO URURAHY (Diretor Geral do Departamento Estadual de Imprensa; 2) DI NAVARRO; 3) DORIAN GRAY. Estes dois últimos, artistas plásticos ilustradores de “ O Testamento de Jó”.

Da bibliografia de WAFLAN DE QUEIROZ, recolhe-se a produção dos seguintes livros (todos de poesia): “Tempo de Solidão”, 1960; “O livro de Tânia”, 1963; “A Colina de Deus”, 1967; “Nas fontes da solidão”, 1970; “Aos teus pés Senhor”, 1972; A fonte de Zeus”. 1974; “A noite de Allah”, 1977.

O NEWTON NAVARRO o retratou numa aquarela que ilustra um poema de DORIAN GRAY, que transcrevemos a seguir em homenagem ao poeta:

“Não tive coragem de ver-te.

Soube por amigos. Rezas a um deus

do vídeo-tape, falas com ele em ondas

de energias. Trocastes os velhos livros

dos profetas pela cor dos movimentos

Deus movendo-se no espaço eterno da energia

apreendida. Mataste Cristo, negas Maria

na qual via as noivas e tuas amantes

na poesia, Lembro-me de ti em dias tão

antigos

da infância. Um Carnaval: rosto coberto

por uma máscara e de repente o rosto

verdadeiro, único e primeiro o antecipa.

Volto a te ver anos depois; debaixo do braço

o livro preferido. Rimbaud te acompanha é

teu

amigo. Conheces as estrelas de Verlaine

conversas com elas recitando.

São coisas de poeta e de pássaros.

São Francisco era teu irmão de pobreza,

boca um lamento. Os dedos nodosos

a nicotina dos cigarros; os olhos

penetrantes; cavo o rosto,

o cabelo em desalinho. Página a página

passavas recitando Jacques Prevért:

‘Lembras-te Bárbara, chovia em Brest

naquela tarde’.

Chovia em Natal também poeta

no dia em que te levaram ao sanatório.

Só por uns dias, disseram. Voltaste

Muitas vezes. Ficaste para sempre,

Onde poderemos encontrar,

Teus livros agora? As traduções, os

poemas

manuscritos; onde poderemos

reler tuas conferências; Rimbaud

Hordelin

Baudelaire? Um estranho Deus, mais

estanho

que Jeová que amaste, espera,

para juntos subirem às esferas altas

onde só habitam os anjos e os poetas” (DORIAN GRAY, “Poema para Walflan de Queiroz no Sanatório dos Loucos”. O POTI/DIÁRIO DE NATAL, domingo, 27-03-1994, Caderno – O POTI REVISTA –, p. 01).