(Por Horácio Paiva)

 

 Konstantinos Kaváfis tinha nacionalidade grega, mas nascido em Alexandria, Egito, oriundo da numerosa colônia grega ali estabelecida. É considerado, por muitos, o maior poeta grego dos tempos modernos (entretanto, lembremo-nos: temos, também - façamos justiça -, Níkos Kazantzákis, outro poeta de grande notoriedade internacional e excelente romancista, autor de obras memoráveis como “Zorba, o Grego” e “O Cristo Recrucificado”). Em vida (e viveu 70 anos) era praticamente ignorado em sua terra e não publicou nenhum livro, embora tenha divulgado vários de seus poemas através de folhas mimeografadas, distribuídas entre os amigos, dois opúsculos que chegou a organizar e em jornais e revistas culturais. Seu único livro, com 154 poemas, foi postumamente publicado em 1935. Morrera em 1933, no dia de seu aniversário (29 de abril), na mesma Alexandria em que nascera, em 1863. Conheci alguns desses belos poemas em princípio da década de 1980. A propósito, aconteceu, comigo, um fato interessante. Encontrando-me, em 1987, em São Paulo, e entusiasmado pelos primeiros poemas que lera, procurava a sua obra poética (que havia sido traduzida por José Paulo Paes), quando, numa das livrarias da Avenida Paulista, indaguei sobre o livro. O livreiro não o conhecia. Alguém, certamente um intelectual paulista, que não recordo o nome, repreendeu o livreiro: “Como você não conhece o maior poeta grego da modernidade?!”. Noutra livraria, porém, adquiri a obra que me causava tanta expectativa. No poema que ora transcrevo (e que me parece um de seus pontos altos), traduzido por José Paulo Paes, Kaváfis ensina o caminho estóico. Afinal, ter a grandeza de saber perder também significa estar com a verdade, em oposição ao ilusório, por mais que este nos envolva e adquira o significado de algo maior. KONSTANTINOS KAVÁFIS (n. 29/04/1863, Alexandria; m. 29/04/1933, Alexandria): O DEUS ABANDONA ANTÔNIO Quando, à meia-noite, de súbito escutares um tiaso invisível a passar com músicas esplêndidas, com vozes - a tua Fortuna que se rende, as tuas obras que malograram, os planos de tua vida que se mostraram mentirosos, não os chores em vão. Como se pronto há muito tempo, corajoso, diz adeus à Alexandria que de ti se afasta. E sobretudo não te iludas, alegando que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou. Como se pronto há muito tempo, corajoso, como cumpre a quem mereceu uma cidade assim, acerca-te com firmeza da janela e ouve com emoção, mas ouve sem as lamentações ou as súplicas dos fracos, num derradeiro prazer, os sons que passam, os raros instrumentos do místico tiaso, e diz adeus à Alexandria que ora perdes. (Tradução de José Paulo Paes)