Nelson Patriota

Por estes próximos dias, as diversas mídias locais terão bons “ganchos” para falar do artista plástico, poeta e ensaísta Dorian Gray Caldas. Comemorando 80 anos de vida e de arte (considerando-se que ninguém se faz artista, e, sim, se nasce artista, ao contrário daquele conhecido argumento de Simone de Beauvoir sobre o segundo sexo), ele acaba de inaugurar no Palácio da Cultura a exposição “Dorian Gray – Acervo do Artista”, evento que cobre as diversas fases de sua arte pictórica desde os anos 1950.

Tapeçarias, marinhas, murais, telas salpicadas de motivos domésticos podem ser vistas até o final de julho próximo no Palácio da Cultura. Mas esta é só a primeira fase do ciclo de comemorações que está programado para este ano. A Assembleia Legislativa, a Academia Norte-rio-grandense de Letras, o SESC e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte abrigarão, sucessivamente, a retrospectiva da obra de Dorian Gray, o que cumprirá um dos objetivos mais caros à agenda do evento: chegar ao maior número possível de pessoas dos mais diversos segmentos do estado.

Artista que combina informação e intuição, teoria e prática da arte, Dorian Gray sabe que lida com um ofício mutável e cujo fim está situado além do horizonte efêmero dos dias. É por essa razão que, ao agradecer ao poeta Paulo de Tarso as palavras elogiosas e verdadeiras proferidas por ocasião da abertura da exposição no Palácio das Artes, no dia 8 passado, Dorian Gray fez questão de frisar que a retrospectiva que colocava à apreciação do público norte-rio-grandense não assinalava a culminância do ciclo percorrido por sua arte. Enfático, declarou, de improviso, que o trabalho do artista nunca termina devido à própria natureza da arte, infinita, inesgotável.

 

 

 

 

 

 

 

Mais do que isso: a arte tem um custo pessoal, que varia para cada artista, mas que é invariavelmente alto. No caso de Dorian Gray, a consciência dessa cobrança que a arte faz à vida remonta há, pelo menos, dez anos. Na entrevista que nos concedeu para o jornal O Galo, em março de 2000, ou seja, às vésperas de fazer setenta anos, o artista confessava: “Eu sempre pensei que poderia viver plenamente como uma pessoa comum sem renunciar ao lado artístico, mas logo cedo vi que teria que fazer sacrifícios e renúncias ao homem, se quisesse obter um certo esplendor artístico, uma certa vivência artística. É impossível você conciliar as duas coisas”. E concluiu: “A gente paga um tributo muito grande ao artista”.

Se é verdade que a maior motivação a que um artista pode aspirar é o reconhecimento do valor de sua arte pelos seus contemporâneos, então é razoável aferir que o artista Dorian Gray pagou um tributo justo ao homem, realizando plenamente o adágio de Wilde que diz: “o artista é o criador de coisas belas”, abstraindo, assim, toda a gama de dificuldades que as teorias da arte habitualmente comportam.

Que melhor título se adequaria a um artista que se constitui numa síntese do melhor que a arte potiguar aspirou ser e o conseguiu, há mais de cinquenta anos; que explorou com talento, perícia e originalidade os mais diversos gêneros e estilos das artes plásticas, ampliando os seus horizontes, abrindo-lhes novos caminhos; cujos murais, à semelhança daqueles realizados por Rivera, valem por uma síntese histórica daquilo que, mais do que somos, nos tornamos?

Se a arte de Dorian Gray articula com tamanha desenvoltura a arte de nos traduzir, a nós seus contemporâneos, em nossos mais diversos momentos e situações, juntamente com o pano de fundo sobre o qual transcorre o nosso dia a dia, o inverso da equação nos desfavorece, porque não o compreendemos na sua totalidade artística, na medida em que ignoramos que, ao lado do artista plástico, há o poeta, o ensaísta, o historiador, o escritor enfim, que maneja a palavra escrita com não menor paixão que os instrumentos das artes plásticas.