(VISÃO  LINHA DURA)

 1.     Eduardo Gosson

25 de abril de 2013

O Estado brasileiro não garante saúde, educação e segurança aos cidadãos: tudo funciona precariamente. Não há políticas públicas de saúde para dependentes químicos; os hospitais psiquiátricos atendem 10% de doenças mentais e 90% de dependentes no improviso.
Ao contrário do se prega – falso liberalismo – devemos declarar guerra total ao tráfico e aprovar urgentemente no Congresso uma PEC para envolver as Forças Armadas nesta guerra, colocando-as nas vastas fronteiras do Brasil, especialmente na Região Norte do Brasil que é por onde entra o grosso da droga.
Digo isso com profunda convicção uma vez que sou pai de 02 dependentes químicos, tendo um morrido tragicamente no ano passado de overdose de cocaína. Só quem viveu e vive este drama entende o que estou falando. O resto é miudezas de armarinho e conversa de botequim.
Eduardo Gosson

2.     Marcos Silva

(VISÃO ROMÃNTICA)

25 de abril de 2013

Eduardo:

Compreendo o sofrimento de um pai que viveu e vive essas difíceis experiências.
O tráfico é atividade MUITO perigosa para a sociedade, envolve grande volume de dinheiro, inclui armas e possui caráter de grande empreendimento capitalista, sobrevive através da alta corrupção. Daí, a extrema lentidão e mesmo ineficácia no combate ao tráfico.
Sobre o consumo, falo como não-usuário, que tem muitos amigos e conhecidos dependentes – incluindo um amigo de juventude que morreu por overdose. Não basta coibir (o que é feito), é preciso compreender, apoiar, amar. O uso de drogas, em nosso mundo, é comandado pela ganância de lucro dos traficantes. Noutras sociedades, drogas paralelas são usadas ritualmente, sob controle, com regras – quem usa, quando usa, como usa. Entre nós, quem tem dinheiro (até criança), compra, usa – e, freqüentemente, morre.
Temos um difícil caminho pela frente – essas drogas não sumirão do mapa. Precisamos conversar e reconversar com os usuários sobre a importância de estar vivo. Eu gostaria muito que Janis Joplin e Jimmi Hendrix estivessem aqui, cantando e tocando. O que aconteceu para que pessoas sensíveis e talentosas como eles – e tantos mais – optassem pelo encurtamento da vida? O que há de errado em nosso mundo? Como mudar o mundo para que não seja preciso se drogar até à morte?
Quando eu era jovem (fins dos anos 60 e anos 70), havia uma visão idílica e romântica das drogas como instrumento para alargar a mente. Hoje, sabemos que o tráfico é apenas um negócio a mais para quem tem dinheiro, nem que seja preciso roubar para tê-lo. Algumas pessoas alimentam o mito romântico da transgressão como avesso do que existe. Certas transgressões viraram peças do sistema capitalista, nem é preciso legalizar o consumo de drogas para que isso ocorra. Fumar/cheirar/injetar/etc é exibição de poder de compra, como uma bolsa vuitton ou uma jóia cara. Não ser dependente virou mais transgressão.
O problema não é somente dos dependentes, o problema é de todos.

(In SUBSTANTIVO PLURAL, 25.04.2013)