TN -: 27 de Julho de 2013

 

Ivan Maciel de Andrade - advogado

Não se sabe ao certo de que forma Machado de Assis veio a conhecer Paula Brito. Sabe-se tão somente que esse conhecimento se deu, provavelmente, no início de 1855. Machado tinha então apenas dezesseis anos. Paula Brito era proprietário de tipografia e editor. E publicava um jornal bissemanal (Daniel Piza chama de “jornalzinho”) – “A Marmota Fluminense”, que já circulava há seis anos, “belo e raro exemplo de constância e longevidade”, enaltece Jean-Michel Massa. Esse crítico e ensaísta francês – não é demais relembrar – escreveu “A juventude de Machado de Assis (1839 – 1870), ensaio de biografia intelectual” (2.ª ed., Unesp, 2008), que foi considerado por Antonio Candido, nosso maior teórico literário, como “um dos livros mais importantes que se escreveram sobre qualquer aspecto da literatura brasileira” (prólogo incluído na citada edição).

O acesso a Paula Brito criou para Machado duas excelentes oportunidades: a de publicar os seus primeiros poemas na “Marmota” (1858) e a de conviver e fazer amizade com grande número de escritores que exerciam atividades jornalísticas. Além do mais é atribuído à influência de Paula Brito – que, segundo Massa, teve um papel “decisivo para a cultura brasileira” – o emprego que Machado conseguiu (1856) de aprendiz de tipógrafo da Imprensa Nacional. Por feliz coincidência, a Imprensa Nacional era, nessa época, dirigida por Manuel Antônio de Almeida, o romancista de “Memórias de um sargento de milícias”. Em 1858, Machado passa a ser revisor, simultaneamente, na tipografia de Paula Brito e no “Correio Mercantil” e – fato marcante – publicou um estudo crítico sob o título de “O passado, o presente e o futuro da literatura”. Para Lúcia Miguel Pereira, “foi esse o primeiro lampejo de talento de Machado de Assis”. Nesse ensaio, Machado protestou contra a “’escravização’ da literatura brasileira aos cânones portugueses e, ao mesmo tempo, contra o ‘indianismo”, por não ser necessariamente poesia nacional”, na síntese feita por Daniel Piza.

Colaborador do jornal “O Paraíba” – para Lúcia Miguel Pereira, “uma publicação interessantíssima” – Machado de Assis escreveu em 1858 um artigo que, na opinião de Brito Broca, “revelava o estofo de um ardoroso jornalista político liberal”. Mas foi na revista “O Espelho” que Machado publicou, em 1859, o artigo “Reforma pelo jornal”, em que Jean-Michel Massa detecta “não sei quê de subversivo”. Prossegue o ensaísta francês: “Trata-se de uma reivindicação que explodiu no país ainda bastante paternalista que era o Brasil. Por essa profissão de fé democrática, Machado de Assis confirmava sua solidariedade às classes populares. Atacou aqueles que se opunham à elevação social dessas classes. Analisou os receios dos aristocratas diante dos movimentos populares, diante da ascensão das inteligências proletárias”. Machado encerra esse artigo, em que condena “o fechamento da imprensa e a supressão da sua liberdade”, afirmando: “Eu não creio no destino individual, mas aceito o destino coletivo da humanidade.” Até nas críticas teatrais, ele se identifica com as classes populares e defende o “grande princípio democrático”.