Pedro Simões Neto – Professor de Direito aposentado, Escritor e Advogado.

Agora, lábios meus, / dizei e anunciai
os grandes louvores / da Virgem, Mãe de Deus.
Sede em meu favor, / Virgem soberana;
livrai-me do inimigo / com o vosso valor.
(Ofício da Imaculada Coceição)

Minha memória urbana do Ceará-Mirim dos anos cinqüenta limitava-se ao lá-em-cima e ao lá-embaixo. A cidade tomara as encostas de uma elevação que deve ter conhecido o seu momento de glória, antes que os fundadores da cidade a ocupassem. Mas à época era uma gangorra com algumas plataformas para descanso.Vivíamos literalmente pendurados. As nossas casas, mesmo aterradas e aprumadas, eram equilibristas num plano inclinado. Toda vez que recorríamos à porta de entrada, a ladeira nos apresentava o instável equilíbrio da nossa engenharia.

Da Rua Grande até a praça do mercado, as ruas que apontavam para Várzea de Dentro e Capela, eram planas. Cortavam transversalmente a subida para o Patu e adjacências. Era como um descanso, uma pausa para o fôlego.

Na minha imaginação esse fato deve ter contribuído para a índole cultural do cearamirinense. Tanto que, quando perguntado para onde ia, o itinerante respondia invariavelmente: vou subir (ou descer) – nunca dizia o seu destino real. E também por isso, o andar dos nativos traía uma certa cautela, situando-se entre o esforçado e o cuidadoso.

E as casas se assemelhavam a navios num mar onduloso.

Identificávamos quem não era da cidade, porque estes andavam como escravos alforriados ou gente acanalhada, sem peias, livres das correntes, pernas abertas, debochados.
Até hoje guardo essa característica andarilha. Quando fui estudar no Marista meus colegas me diziam que eu andava como se estivesse “com medo de peido”.
Hoje, a cidade, que nem uma ave, aninhou-se no planalto. Esticou as asas no sentido da antiga mata da usina e da “terra da santa”. Os cristãos-novos, habitantes do Ceará-Mirim do altiplano, são mais afoitos e incorporaram aos pés uma “galocha” motorizada – o automóvel. Mas os antigos ainda conservam a mesma andadura.

Talvez o lá-em-cima e o correspondente lá-embaixo da época referida tenha marcado a minha geração como uma fatalidade, porque não havia alternativa senão caminhar, vencer a distância e o esforço com os próprios pés. Não fossem os caminhões das usinas, proibidos de dar carona na cidade (mas liberados para o transporte de passageiros no trajeto de volta), um ou outro caminhão, sempre comprometido com o transporte de cargas – o “misto” de Fernando Farias, na rota de Coqueiros, o caminhão de Chico Horácio e sua buzina de oito baixos, os velhos caminhões de Luiz Murat, para transporte de cal, de José Paiva e de José Mendes – restavam as camionetas de Manoel Pereira, Herbert Dantas (Betinho), José Bonifácio, Valdemar de Sá e Euclides Cavalcanti, o “land rover” de Vital Correia, e os jipes das usinas, que eu me lembre.
Por isso, o trabalho dos vendedores e feirantes era tão penoso.

José Soares, conhecido como “Zé Gago”, emérito saxofonista e orador do Náutico Esporte Clube, durante o dia conduzia o seu carrinho de sorvetes, anunciando o produto com aquele fon-fon das antigas buzinas de bicicletas; os vendedores de mugunzá (chá de burro), arroz doce, geléia com coco, cavaco chinês (anunciado com um triângulo usado nos grupos de baião), algodão doce, cocada, além do peso, andavam com maior cautela, um olho no conteúdo para não derrubá-lo, outro no possível freguês.

E os pregoeiros das feiras sabatinas e domingueiras?

A cantilena era entrecortada pelo esforço do trajeto lá-em-cima da feira, mas ainda assim animada. Roufenhos, uns que outros, esganiçados alguns. As mulheres se superavam, como estivessem numa disputa pela voz mais gritada. Essas nem se importavam com o peso dos taboleiros nas cabeças, sua atenção concentrava-se na potência da voz. (Mais impressionante que o pregão delas, só os gritos modulados pela língua das mulheres bérberes)

Quem não estava nem aí para o sobe-e-desce eram os orgulhosos proprietários dos carros de rolimãs, meninos grandes de calças curtas . Valia a pena descer embalado que nem o “cachorro da molesta”, mesmo pagando o preço da subida pesada.

Os mais afortunados, cavaleiros garbosos que nem Chico Campos e João Neto, (meus centauros redivivos), e os teimosos donos de burros, riam à toa. Embora os patriarcas cearamirinenses gostassem de ir a pés “fazer a feira”, orgulhosos, com cestas à mão. Essa era tarefa de homem. Era a oportunidade de disputar com as mulheres no que elas eram mestras – na arte de pechinchar.

Bicicleta só era usada por raríssimos heróis ou por quem transitava pelas planuras.
Até pedalar o velocípede era cansativo, mesmo para uma criança cheia de energia. Salvo se morasse numa das ruas de descanso, já referidas. Que nem eu, que morava em frente ao cinema de Jorge Moura, na então rua Pedro Correia, onde também moravam Chicó Pereira e Dona Alzira, Doutor Canindé Cavalcanti, Batu de Sá, Chico Leopoldino e onde ficava a “venda” de Chico Dantas. Era uma calçada só, de lá-de-casa até a casa de Jorge Moura.

É nesse ponto que particularizo um vendedor de confeitos, condutor de um tabuleiro pesado de madeira, sustentado aos ombros por uma tira de couro, que encantou a minha infância. Nós o chamávamos de “Melo” e não o conhecíamos por outro nome. Mais que um “baleiro” era uma criatura mágica, um ilusionista, um performático, para usar a linguagem moderna. Um ator consumado que encarnava com perfeição os personagens que caracterizava.

Eu o via sempre diante do cinema de Jorge Moura, nos dias de sessão, ou nas tardes preguiçosas do estio, sentado nos batentes da igreja de Nossa Senhora da Conceição. Mas tinha notícia de que era “deus”, isto é, estava em toda parte, ofertando as suas guloseimas.

Era apaixonado por cinema, sobretudo pelos filmes de aventura – os seriados, principalmente. Assistia às projeções com muita atenção e às vezes ficava tão concentrado que nem percebia a rapinagem dos seus confeitos pelos acanalhados freqüentadores da “geral”.

Participava também das trocas de “Gibis” em frente ao cinema.

E assimilava os personagens, para no dia seguinte oferecer a sua interpretação. Fascinava-me a sua performance dos árabes, engrolando a voz em sons guturais que lembravam a algaravia dos muezins muçulmanos.
Lembro-me que não poupava o velho Kalil, a quem chamava de “turco”, imitando-lhe o sotaque e relatando passagens cômicas do imigrante, como o célebre episódio da viagem no “misto” para Natal, quando pedira
aflito ao motorista: “Pára, pára camiona gue Kalila gué cag…”

Alto e magro, andava com calças e camisas folgadas e alpercatas – uma espécie de sandália de couro com tiras que a prendiam ao tornozelo e cobriam o peito do pé. Geralmente tinham o solado feito da borracha do pneu de carro, Era uma figura singular: cabelos alourados e ralos, boca funda, nariz proeminente, a pele com marcas de bexiga e precocemente enrugada e uma maneira de falar que parecia “soprar” as palavras. Era rápido nas respostas e nas contra-ofensivas. Como era rico o seu imaginário, atingia o agressor no ponto mais vulnerável e do modo mais ferino e irrespondível. Era também um implacável “botador” de apelidos e um pilheriador, desses que tiram os inoportunos do sério.
Constava-me que era um excelente filho e ótimo irmão. Um “arrimo de família” que se esforçava para ajudar no sustento da casa. Descendia de uma ilustre linhagem que se arruinara financeiramente.
(Nos anos oitenta, fui visitá-lo em sua casa, na Cidade da Esperança, e me deparei com o seu minúsculo quarto repleto de livros apanhados no “sebo”. Disse-me que não mais os guardaria. Á medida em que fossem lidos, seriam doados. Mas, surpreendeu-me o fato de que dispusesse apenas de um único cômodo. Todo o resto da casa era serventia de seu irmão “Beto”, portador de uma patologia crônica).
Era devoto de Nossa Senhora da Conceição, não um simples devoto, mas um prosélito, um fiel, alguém que converte o dogma em uma prática, um hábito, que humaniza o divino para tê-lo mais perto de si. Nossa Senhora era como uma madrinha protetora que o protegia, pacificava e lhe dava esperança.
Meus pais, sobretudo o meu pai, o tinha como modelo de dedicação familiar e de inteligência. Se não mantive com ele uma relação de amizade mais estreita nessa época, é porque nos separava a diferença de idade. Ele deveria ter pelo menos seis anos a mais que eu. Quando o conheci era um menino de calças curtas e ele um adolescente maturado pelas responsabilidades.
Encontramo-nos muitos e muitos anos depois em Natal. Era funcionário dos Correios e conhecido pelo verdadeiro nome: Inácio Magalhães de Sena.
Então, tornara-se um ícone da cultura autodidata. Leitor compulsivo, adquirira fama de erudição e de crítico mordaz dos maus costumes e das más leituras.
Quando assumi a Pró-Reitoria de Extensão  da UFRN, um grupo de amigos comuns me procurou para que pleiteasse do Reitor Diógenes da Cunha Lima o encaminhamento e as gestões junto aos Conselhos Superiores da Universidade, para que fosse reconhecido e declarado o “notório saber” de Inácio, e assim ele pudesse ser contratado como professor da instituição.
Lembro-me de Vicente Serejo, João Batista e Doutor Chiquinho, como líderes do movimento. Na oportunidade do encontro, a ilustre comitiva me presenteou com um excelente livro de Aldous Huxley, “A eminência parda”. Na dedicatória, havia uma insinuação de que haveria traços comuns entre o personagem-título e eu. Não entendi a semelhança até hoje, embora tenha a obra como texto recorrente e preito de gratidão desses amigos.
Engajei-me, pela justeza do pedido e por razões afetivas. Mas o pleito foi vencido pelo formalismo acadêmico vigente.
Depois, publiquei de sua lavra um delicioso livro: “Agora lábios meus dizei e anunciai”, com ilustrações de Iaperí Araújo. Quem mais poderia ilustrar o livro de Inácio senão o barroco-armorial-sertanejo Iaperí Araújo, o intérprete imagético das bestas-feras, do fabulário e do mítico nordestino? O lançamento foi um sucesso.
Perdemo-nos no turbilhão da vida, cada qual voltado para a sua Meca. Voltei a ter notícia dele através da minha irmã, Joventina que me transmitiu um seu recado: que eu mudasse o título do meu livro de memórias, provisoriamente intitulado “Memórias de um menino sem eira nem beira” sob  argumento de que o título não condizia com o real – que eu , de fato, teria eira e beira. Mudei o título para “De quando tudo era azul”.
Inácio alforriou-se do sobe-e-desce da sua terra. Andou pela Oropa, França e Bahia, publicou mais um livro, o excelente “Memórias quase líricas de um ex-vendedor de cavaco- chinês”, continua pontificando no seu círculo intelectual e permanece com o brilho que sempre teve. Malgrado as minhas necessidades existenciais, ainda estou subindo e descendo as ladeiras da vida, com o mesmo andar “com medo de peido”.
Mas alenta-me poder declarar a minha amizade, intocada pelo distanciamento, e o meu orgulho em tê-lo como referência.
Vejo um quase Quasímodo projetado no meu amigo. Um que tenha sido adaptado por Zé Limeira para um auto de devoção a Nossa Senhora inspirado nele. A ternura e a devoção por trás do invólucro tosco, mas não disforme. A bondade natural, espontânea, que não simplória. A cigana Esmeralda, reinventada, transfigurada em Nossa Senhora. O fascínio pelas catedrais. O recurso ao pátio dos milagres que o converteu numa transcendência inimaginável.
Um anjo-torto numa imagem barroca de pedra-sabão, porque, acima e além de qualquer classificação, ele é barroco. Um fora-de-época, não à frente do seu tempo, mas de mui remota e prisca era. Deslocado.
Se tivesse vivido ao tempo de Aleijadinho, sem sombra de dúvida o notável escultor o teria convidado para posar para a série de profetas. Ás vezes, quando olho para o meu amigo, vejo-o vestido com a túnica dos profetas hebreus, o chapéu ritual, as barbas enormes, como as imagens do artista mineiro e concluo que é esta a sua origem e este poderia ser o seu destino, se Deus o quisesse feliz, se ele não tivesse que continuar o seu aprendizado no sofrimento para destituir-se das impurezas humanas e ingressar pela porta da frente, puro e redimido, no Reino de Deus.
É tão verdadeiro o seu “carma”, que lhe foi cumulativamente roubado e negado os seus mais preciosos projetos de realizações pessoais: o prolongamento da vida da sua mãe e o ofício religioso. Mas, longe de se tornar um renegado ou um ímpio, voltou-se para a sua fé e se resignou com as decisões divinas, embora irresignado com a ordem das coisas temporais.
Poderia ser um beato sertanejo, mariano, aguerrido e ousado; um cavaleiro da Ordem de Cristo, templário, ou um escriba de monastério, mas sempre seria Inácio, uma individualidade indivisível, íntegra, que perdura há encarnações sucessivas. Transcendente.

Bilhete de Bartolomeu Correia de Melo
Pedro:
Esse texto confirma, ao meu sentir, seus maiores dons literários – os mesmos de Proust,
Pedro Nava e Madalena Antunes: o sensível memorialista, o rico traçador de perfis e,
ainda mais, seu quase enrustido lado poético, faceta generosa, meio inusitada,
instigando bons pensares, semeando bons sonhares. Havendo partilhado
do mesmo tempo e lugar desses contares, gozo a gratissima sintonia de tais qualidades
evoladas dos seus escritos. Por vezes, não nego, tanto me ferem as saudades
que a vontade de chorar vence a de voltar.
Ninguém faria ao nosso Inácio maior preito nem melhor canção.
Bartolomeu