QQCoisa - Dácio Galvão - daciogalvao@globo.com

A pintura de Marcelus Bob é explosiva nas cores. Sempre intensas, demarcam uma evocação da tinturaria estampada na Pop Arte norte-americana. Sobrecarrega abordagens no lirismo às avessas. O desenho é caricato, traço fino. Personagens habitantes de margens sociais. Paisagismos hiper-realistas em direção a Gregório Gruber. A vivência no morro de Mãe Luiza. Paralelo existencial e provinciano comparável a Hélio Oiticica na criação de Parangolés, capas integradas na comunidade do Morro da Mangueira. Mais que provocador, um ar denunciador e animador a toda prova. O pensar social. O olhar estético. Lance em duas vertentes da sua produção: Humanóides e Via Costeira.

Tem, entre outras, a série Repentes. Irrefutável marca do urbanismo musical periférico. Não há preocupação com o documental de cunho estritamente folclórico ou antropológico. O universo não é rural e suas recorrências são ambíguas. Oriundo do mundo agrícola aportados no periférico. O gueto suburbano povoado por personagens disformes. Não é surpresa o encontro do poeta inglês Lord Byron curtindo uma anônima dupla de cantadores. Na cena as violas em desafios, chapéu de palha praieiro, sapatos azuis vinílicos.

Os trabalhos da série Os Encapuzados traduzem a androginia, a suspeição. Excluídos, deserdados. Biriteiros, malandros, botecos, becos, ruas, esquinas... Prostitutas?  Cenas noturnas e soturnas.  Transgressão ilimitada. Da casa de taipa ao boteco. No interior, o carteado. Jogos. A ambiência que pode remeter ao mar. O mar com uma plataforma petrolífera. Na área litorânea, o espaço projetado para cães esquálidos, farejadores. Ou descarnados caprinos como ícones sertânicos. Na antropofagia do repente, Marcelus Bob, em processo de criação, se permite fazer audição de Jimy Hendrix. As sextilhas, gabinetes ou mourões, tradicionais gêneros de cantoria, ficam para uma escuta do acaso. O desfrute é de lisérgicos solos da guitarra do autor de Purple Haze. Essa é a dialética da sonorização da sérieRepentes. Por mar e por terra, o arcaico e contemporâneo se imbricam.

É possível a aplicação de ácidas legendas nos quadros de Bob. A sensação, de repente, é da linguagem quadrinizada de ranço underground. Contracultural. Robert Crumb desenhou uma das capas da bluseira Janis Joplin, de quem o artista de Mãe Luiza é um admirador confesso. Há uma certa latência verbal, sempre contida. Assim, essa visualidade vai seguindo, se espraiando e se dependurando através de molduras de muros e casas daqui e de alhures.