PPp por MAURÍCIO MEIRELES  


screve romance desde 1981 e diz faltar muito para o fim Foto Leo Martins
No Rio, o escritor paraibano, de 86 anos, conversou com O GLOBO sobre futebol, literatura, política e morte — sempre com a fala mansa. Ele veio à cidade para dar uma aula no Teatro Municipal e celebrar a exposição “Ariano Suassuna — Arte como missão”, aberta ontem na Caixa Cultural. A mostra reúne fotos de sua intimidade, feitas pelo genro, Alexandre Nóbrega, e documentários e filmes de ficção inspirados em sua obra.
O Sport de Recife acaba de homenageá-lo com uma frase sua no uniforme. O senhor é pé quente?
Eu sou feliz com o Sport. Em alguns momentos mais ainda, como este. Dizem lá os torcedores do Sport, meus correligionários, que eu sou pé quente (risos). Estão até me criando uma obrigação danada. No último jogo que eu fui, o pessoal gritava “Chegou o pé quente! Agora a gente vai ganhar!” Vai que perde, como eu fico? Felizmente, ganhamos. E eu ainda acertei o placar, dois a zero! A Rede Globo até me entrevistou.
Como o senhor encara a velhice?
Não reclamo, é natural envelhecer. A gente vive a vida toda esperando isso. É até bom. Me lembro do Álvares de Azevedo. Tenho uma pena dele! Morreu com 19 anos, rapaz, um poeta daqueles. Veja o que ele dizia, que coisa linda: “Deus, que eu morra no palco! Não me coroem/ De rosas infecundas a agonia!”. Tenho a mesma sensação. Se eu morrer, quero morrer no palco.
O senhor tem medo da morte?
Medo não. Nem gosto de dizer essas coisas, porque não gosto de contar valentia por antecipação. Pode ser que, na hora, eu até me apavore. Mas não tenho medo. Só tenho medo de morrer sem terminar um livro que eu esteja escrevendo; e não ter uma morte limpa. Eu quero pelo menos uma morte limpa.
O senhor estava escrevendo um livro recentemente, não?
Recentemente não, meu filho. Eu fico até com vergonha de dizer. Desde 1981 que eu luto com esse danado. Eu tenho um processo de criação muito lento, porque eu escrevo a mão e eu mesmo ilustro. E esse livro é todo ilustrado.
E está perto de acabar?
Que nada. É até uma irresponsabilidade eu dizer isso. Um homem de 86 anos dizer que ainda falta muito! Não sei se a morte vai me dar tempo.
O senhor pensa na posteridade da sua obra?
Rapaz, olhe: o autor que se julga um grande escritor, além de antipático é burro, imbecil. Um escritor só pode ser julgado depois da sua morte. Muito tempo depois. Eu sou da linhagem de Euclides da Cunha. Quando eu falo sobre um escritor que pensou o sertão, eu prefiro citá-lo por já terem passado mais de cem anos da morte dele. O que ele tinha de envelhecer já envelheceu. Já dá para o julgarmos. Mas Ariano Suassuna, ainda vivo, não.
O que o senhor achou dos últimos protestos no Brasil?
Vi um cartaz dizendo “Fora os partidos, fora os políticos.” Eu estou com 86 anos e sei o que é um regime sem partidos e sem políticos. O nazismo, por exemplo. É estranho que, em todo grupo, tenha mascarados quebrando tudo. Mas, como sintoma, os protestos precisam ser levados em conta, são positivos.
O senhor é secretário de assessoria ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Vai apoiá-lo se ele for candidato à Presidência?
Estou com ele e não abro. É uma figura honrada. Ele parece uma renovação do Miguel Arraes que conheci no passado.
O Brasil será homenageado na Feira de Frankfurt. O senhor acha que nossa literatura precisa de divulgação?
Não me importo com isso. Sou um escritor brasileiro e escrevo para o povo brasileiro. Se os outros derem atenção, é melhor. Mas não fico sofrendo. Se os alemães não leram Guimarães Rosa, Euclides da Cunha ou Machado de Assis, quem perde são eles.
Nessa exposição, o senhor foi fotografado em casa pelo seu genro. O senhor gosta de ser fotografado?
Da maneira que o Alexandre (Nóbrega, seu genro) fotografa eu gosto. Quando me botam para funcionar como ator, não. Ele não manda eu representar. Eu fico sendo eu mesmo e ele tira as fotos. Tem vezes que me dizem: “Fique natural...” E eu respondo: “Então tire essa câmera para lá!” (risos).
Como o senhor resumiria sua obra?
Em primeiro lugar, minha literatura é uma missão: defender o povo e a cultura brasileiros. Em segundo, uma vocação. Não acredito em literatura sem vocação. Em terceiro, é uma festa. Passei por momentos muito duros na vida, mas os enfrentei pela minha arte, que é a minha dança. Eu sei que eu posso ficar cego, porque sou diabético — mas eu danço. Quando digo dançar, quero dizer que participo da festa da literatura. A morte é certa. Todos nós morremos — e eu danço mesmo assim. A tarefa de viver é dura, mas fascinante. Agradeço a Deus o fato de viver. É com estas três palavras que eu danço: missão, vocação e festa.
Por que o senhor não participa da rotina na ABL?
Eu nunca participei. É muito longe, meu filho.
Mas senhor poderia ter votado por carta na última eleição, que elegeu FHC, mas comenta-se que preferiu se abster. É verdade?
(Pausa) É, não votei.
Por quê?
Meu filho, não faça pergunta inconveniente! (risos)
(In O Globo, 04.08.2013)