Por Ivan Maciel (*)

 

A imprensa teve importância decisiva no processo de criação ficcional de Machado de Assis. Muitos de seus romances, tanto da primeira como da segunda fase, foram publicados em forma de folhetim antes da edição em livro: “A mão e a luva”, 1874, e “Helena”, 1876 (em “O Globo”); “Iaiá Garcia”, 1878 (em “O Cruzeiro”); “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, 1880 (na “Revista Brasileira”) e “Quincas Borba”, 1886 (em “A Estação”). Os seus contos (sobretudo os que revelam sua genialidade nesse gênero, como “O Alienista”) e novelas (como “Casa Velha”), também saíram, em sua maior parte, primeiramente em periódicos. Além de inúmeras e importantes traduções.  

A publicação sob forma de folhetim – em que cada capítulo de romance ou cada conto era escrito para ser lido de imediato por leitores de jornais ou revistas – influenciou marcantemente a produção literária de Machado de Assis: ele tinha, assim, de conquistar um público transitório e cotidiano. Como analisa José Castello, essa influência “aparece no estilo descontraído e confidencial, nos capítulos breves e na maneira realista de narrar”. Enfatiza esse crítico: “Sem a imprensa, o Machado que conhecemos, provavelmente, não teria existido.” Merece ser esclarecido  que o folhetim não se constituía apenas de “histórias de ficção publicadas em série”, como ressalta Daniel Piza. E Brito Broca define-o muito bem como “uma crônica de caráter geral em que podiam ser abordados todos os fatos da semana, sem nenhuma preferência pelos motivos políticos”.   

Ao escrever as célebres páginas memorialísticas sobre “O velho Senado” (artigo publicado na “Revista Brasileira”, em 1898, e depois incluído no livro “Páginas Recolhidas”, de 1899), Machado de Assis explicita que foi no ano de 1860 que entrou para a imprensa. Relembra uma conversa que teve com Quintino Bocaiúva. Nessa conversa, Bocaiúva lhe fez perguntas sobre política. Percebeu Machado que Bocaiúva queria conhecer as suas “opiniões”. Diz Machado que “provavelmente não as teria nem fixas nem determinadas”. Mas Lúcia Miguel Pereira o contradiz: “Traía-o a memória ou se arrependia de as ter tido, nesse momento, bem fixas e determinadas.”

O certo é que, em seguida, Bocaiúva lhe ofereceu um lugar na redação do “Diário do Rio de Janeiro”, dirigido por Saldanho Marinho e tendo o próprio Quintino como “redator principal”. Machado recorda que foi para o Senado, fazer a “resenha dos debates”, representando o “Diário do Rio” e lá conviveu com Bernardo Guimarães, do “Jornal do Commercio”, e Pedro Luís, do “Correio Mercantil”. Segundo Alfredo Pujol, Machado começou fazendo “a cozinha do jornal”. Coube, no entanto, a Lúcia Miguel Pereira realizar as observações mais interessantes: “Jornal admirável esse ‘Diário do Rio’, bem impresso, bem redigido, com ótima colaboração. Não espanta que fosse bem redigido: os anúncios, as pequenas notícias, os fatos diversos eram escritos ou corrigidos por Machado de Assis”, que já se distinguia nesse tempo pelo estilo “nítido e limpo”. Dado significativo: Machado de Assis, “nesses primeiros anos, foi um ótimo jornalista, e não apenas um cronista.”

(TN – 11 de agosto de 2013)