Maria Eugénia Cunhal, quem a conhece, quem alguma vez falou com ela e leu os seus livros, sente que ela e os seus livros, a sua militância e os seus livros, o ser humano que ela é, estão naqueles poemas e contos e crónicas. Estão lá até ao âmago do seu ser.

Porque neles sentimos não só o seu entendimento do mundo e das pessoas, mas até o seu olhar e o seu respirar: aquele escrever compassado, aquele escrever falando-nos tão humanamente, falando e parando e escrevendo «Desceram a escada, a luz apagou-se.

- Anda, agasalha-te.

Abriram a porta da rua. O vento bateu-lhe na cara. Deu a mão à mãe. Chegou-se mais a ela sem compreender.»

Que voz, que por ser tão repassada, diria de compaixão, de solidariedade, é apenas murmurada, mas tão profundamente. Porque esta escrita vem do sangue que alimenta o pulsar do coração, por isso é comovida, por isso é bela.

Desde que escreve, desde que respira, Maria Eugénia Cunhal fez a sua opção.

Editado em 1962, «Silêncio de Vidro», o seu primeiro livro, é repassado de estar com os outros, de reparar e ir com os outros no obscuro das suas vidas pobres e oprimidas. Nele os poemas são habitados por gente humilde e ela escreve: «Um pescador morreu. / No canto ignorado duma barraca pobre.»

E mais adiante noutro poema «– A renda do quarto não está paga, / Três dias de trabalho por semana – / … O Águas chutou, Mateus defendeu, a bola avançou… / – O teu filho Manuel? / Lá está de cama.»

E ainda um outro poema que termina assim: «Pois quando vieres /Não és só tu que vens. /É todo um mundo novo que despontará lá fora. /Quando vieres.» Por isso, este livro é também habitado pela esperança.

E é vinte anos depois, em 1983, que «História de Um Condenado à Morte» é editado pela Barca Nova. Livro de poemas, escrito de uma forma quase epopeica, de uma grande originalidade, livro que pela sua beleza e pela sua afirmação de humanidade, devia de ser lido nas escolas, pois, na sua solidariedade, é um manifesto em que o ser humano como um ser pleno se identifica afectivamente com todos os outros seres animais ou vegetais, portanto um livro de redenção, de dignidade, de poderosa poesia escrito com contenção e disciplina. Um livro em que cada instante é um agora sucessivo: «Em cada já /Se nasce /Para ser //E só em cada já /Se pode estar ///Foi /Ou será /Quem é //Como no mar /Onde a onda é um onde /Contínua sucessão de jás /Num só quebrar.» Um livro onde o ser humano por amor à vida, por amor à humanidade nasce a cada momento que passa, renasce, reaprende, se reaprende e nesse reaprender se liberta. E edifica a sua consciência. Um livro onde se lê «Pois /Livre é ao nascer /Livre se expande //Se o homem /Quiser //E o homem /Vai querer».

Mais tarde, no ano 2000, editado pela «Escritor» «As Mãos e o Gesto», também a mesma fidelidade e uma maior contenção. Aqui a poesia de Maria Eugénia interroga, conscientiza, solidariza-se. Escreve «Lá fora /No frio da noite sei que a lua nasceu /Sei que no cais há barcos que esperam /E gente, como nós, a aguardar a hora impossível da partida».

No seu intimismo contido é o ser humano face à sua própria solidão, à sua circunstância: os sonhos que nos embalaram e que o tempo foi embaciando, o que ficou pelo caminho, o que queríamos que fosse e não foi, o amor que se queria tão dadivosamente e tão desperto: porque é que tudo não foi mais, só mais alguma coisa?

No entanto, o outro, o reparar no outro, o ser solidário continua na voz e na respiração desta poesia.

É que a poesia em Maria Eugénia Cunhal nunca é, nunca será só palavras ou só o prazer da escrita ou só o brilho do poema… A sua poesia é, e, é, visceralmente, porque também ela própria é solidariedade, afecto. Portanto a sua poesia é como o diz este seu poema «Pensa que a poesia não nasce/ por acaso/ Atrás de cada frase há por vezes muito sangue/sofrimento/ Ou alegria ou amor ou desespero/ Ou qualquer outro sentimento humano/ dos mais fortes.»

Também o seu livro de contos, «Relva Verde Para Cláudio», editado pela «Escritor» em 2003, é claro e verdadeiro, humaníssimo, na sua escrita poética, intimista, e ao mesmo tempo tão solidária, tão junto dos outros: dos humilhados, dos injustiçados, dos sós que vivem nas sombras frias que são as suas próprias vidas…

Que estes contos pela sua contenção de escrita, pela sua respiração compassada, pelos seus silêncios de frase para frase são dos mais belos e comovedores que tenho lido. Por eles perpassa a solidão, a velhice que se ampara uma à outra, a ternura que comunica nas pequenas coisas que o amor com o tempo descobre, a ternura para com as crianças ainda não maculadas e por isso ao contrário dos adultos ainda capazes de serem próximas umas das outras. Os gestos, os pequenos e banais gestos que nestes contos nos surgem nimbados de poesia e humanidade: o barbeiro, a empregada de costura, o funcionário já gasto no seu viver tão monótono e burguês.

Toda uma galeria de personagens nos são dadas como se ouvíssemos uma música baixinho e onde espreitam cintilações.

Assim também na «Escrita de Esferográfica», editado pela «Voz do Operário» em 2008, onde na crónica que se intitula «Memória», Maria Eugénia escreve «O cheiro dos pinheiros, da maresia, das urzes, da praia, da minha infância onde aprendi que entre nós e a natureza não existe barreiras».

Neste livro, a escrita, é precisa e contida, os textos são exemplarmente desenhados, o seu princípio, meio e fim completamente conseguidos. E tão humanos.

E é sempre um rumor brando de vento que perpassa, é sempre um olhar, uma atenção a todas as pessoas: as solidões que passam por nós. O cinzento igual e monótono de todos os dias, sem sorrisos, sem viço. E de repente é como se à beira do passeio, entre as pedras despontasse uma flor, um sorriso. E a tristeza da vida é rompida por um raio de sol.

São estas preciosidades que fazem a escrita de Maria Eugénia especial, diferente – este reparar nas pequenas grandes coisas do dia-a-dia que nos tocam e comovem ao lê-la e dá beleza aos seus textos.

A voz de Maria Eugénia Cunhal – as suas palavras escritas, tão contidamente, desenhando os seres humildes, os sofredores, os solitários de uma solidão sofrida em silêncio. «– Não se esqueça. Daqui a uns cinco ou seis dias pode vir buscá-la.

Ficou à porta a vê-la juntar-se ao grupo.

- Buscar o quê? – perguntaram.

- Ora! – disse, encolhendo os ombros.

Já dentro do carro acenou-lhe um último adeus que morreu na poeira da estrada.»

 

Quando vieres

Encontrarás tudo como quando partiste.

A mãe bordará a um canto da sala...

Apenas os cabelos mais brancos

E o olhar mais cansado.

O pai fumará o cigarro depois do jantar

E lerá o jornal.

Quando vieres

Só não encontrarás aquela menina de saias curtas

E cabelos entrançados

Que deixaste um dia.

Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos

Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres

nenhum de nós dirá nada

mas a mãe largará o bordado

o pai largará o jornal

as crianças os brinquedos

e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres

Não és só tu que vens

É todo um mundo novo que despontará lá fora

Quando vieres.

 

Eugénia Cunhal, in «Silêncio de Vidro»

 

Publicado no Jornal Avante! – 21/8/2013