André Valério Sales

 

Minha amiga Jaqueline Aisenman, de Genebra, na Suíça, me pede um artigo pequeno sobre o Natal.

Lembro das músicas de Natal, tristes para alguns, alegres para outros, um oximoro, uma barroada de sensações, e me vem à lembrança a cantora potiguar Núbia Lafaiete que muito cantou e eternizou a canção “Lama”, onde canta: “Se o meu passado foi lama, hoje, quem me difama, viveu lama também...”.

Quem já não viveu a lama de um amor perdido, partido...

A lama que ela quer dizer, é viver numa “merde, como dizem na França”.

Viver na lama, ou na “merde”, é curtir as famosas “dores de corno”, é estar triste por amor, é ser um romântico, em estado de amor grande, frustrado e triste, por não estar sendo correspondido.

Ao escrever este artigo, busco demonstrar sociologicamente que as músicas tristes, românticas, também chamadas “de fossa”, além de provocarem fascínio em muitos de nós, tem uma explicação científica. Ou seja, este gosto musical também tem explicação neuro-científica.

Minha outra querida amiga, Simone Maldonado, antropóloga, professora da UFPB, já orientou tese sobre as músicas românticas da cantora paraibana Roberta Miranda, conhecida e altamente querida no Brasil como autora de canções românticas (“Amor e amantes: homem e mulher no cancioneiro sertanejo”, de Sebastião Costa Andrade, João Pessoa, UNIPÊ, 2000).

Tais canções, românticas, tristes, de Natal, etc... até mesmo dolorosas, podem ser também analisadas e explicadas como favoráveis e benéficas ao ser humano (eis o oxímoro, o paradoxo).

Segundo reportagem recente de Rafael de Pina, na Revista conservadora Época (23/07/2012), tratando das músicas “tristes” da jovem cantora americana Fiona Apple (conhecida como a musa dos corações partidos), um dos primeiros psicólogos a estudar este assunto é o britânico John Sloboda. Em 1983, Sloboda escreveu um livro, “A Mente Musical”, tratando sobre as músicas tristes, natalinas, ou consideradas “de fossa”, que na verdade, persistem como “uma progressão de sons que são identificados como tristes pelos ouvintes”, porém, contraditoriamente “causam sensação de conforto” nas pessoas (De Pina, 2012: 117).

Bastante conhecida pelos músicos como appoggiatura, esta é a principal das progressões de sons que levariam ao entristecimento do ouvinte.

Para os ouvidos leigos, a appoggiatura é quase imperceptível. Ela é “uma nota musical dissonante que quebra a melodia”. O que vem a causar uma tensão em quem ouve a música (id.).

Segundo outro estudioso do tema, o psicólogo canadense Martin Ghun, “quando a música volta a melodia normal”, após a appoggiatura, depois do corte na continuidade da música “normalmente” ouvida, a “tensão se resolve, e dá uma sensação boa” para o cérebro (De Pina, 2012: 117).

Por exemplo, nas canções da americana Fiona Apple, facilmente ouvidas no Youtube, como no caso de “Never is a promise” (que ouvi e nada senti; achei uma música a mais, nas inúmeras tristezas musicais estadunidenses), esta é considerada como um exemplo perfeito do bom uso da appoggiatura.

Tanto é que, a cantora Fiona e esta sua canção, aparecem na Internet como exemplos de uma das músicas “mais tristes da história”, e independente da tristeza, ou alegria, isso não é pouco! Covenhamos que ser considerada grande! Mesmo no quesito tristeza, é algo de importante na nossa realidade contemporânea de internautas!

Explicam os cientistas que o hormônio denominado “prolactina”, é liberado pelo cérebro nos momentos de prazer; associados inclusive à audição dessas músicas: românticas, tristes, natalinas, de lama, fossa. Ou seja: tristes.

Já na Universidade de Ohio, nos EUA, o professor David Huron, da Escola de Música e do Centro de Ciências Cognitivas, “promoveu um estudo e descobriu que canções tristes induzem à tristeza [obviamente] e, por isso, o organismo libera [o hormônio] prolactina no sangue”. Para David Huron a prolactina “causa um efeito psicológico de conforto em situações como a morte de um parente ou o fim de um relacionamento [de um namoro]”. Ainda segundo Huron: “é como a mãe natureza nos dizendo: calma, calma, está tudo bem” (De Pina, 2012: 117).

No entanto, ao final da música triste ouvida, nos natais, nas canções de lama, como canta Núbia Lafaiete, ou Roberta Miranda, etc., “nada de realmente ruim aconteceu com o ouvinte”.

Ao final, conclui David Huron: “é apenas [uma] música, mas você é beneficiado pela liberação” da prolactina, e “fica bem” com a vida. Finalizando, termina-se tudo em um “choro bom” (id.).